Leio no blog do Romulo (www.rfederici.com.br/blogdoromulo/) os motivos pelos quais o Presidente Barack Obama estaria marcado para perder a eleição presidencial do ano que vem nos EUA. Citando um colega norte americano o Rômulo nos diz que, entre outras características, a sociedade norte americana é “darwinista”, isto é, os fortes (mais adaptados) sobrevivem, enquanto os mais fracos morrem, ficam pelo caminho. Na sociedade norte americana não haveria espaço para assistencialismo. Os pobres devem sobreviver como puderem, porque ninguém irá enfiar a mão no bolso para ajudar.
São afirmações interessantes, pois foi essa a impressão que eu tive dos Estados Unidos, quando era garoto e comecei a prestar atenção a essas coisas. Mais tarde me impressionou a derrocada de algumas empresas que julgava poderosas, como a Pan Am. Depois me dei conta de que esse era um processo de renovação saudável, que fazia com que o sistema todo ficasse mais forte. Quem era fraco quebrava e dava lugar a outros mais adaptados, mais eficientes, num ciclo de renovação constante.
No entanto hoje em dia eu tenho uma opinião ligeiramente diferente sobre os EUA. O que estou vendo lá é um processo para o qual ainda não encontrei um nome: quem é pequeno tem que ser eficiente, pois não conta com nenhuma assistência do estado, enquanto os grandes gozam das mais variadas benesses, utilizando dinheiro público que, por sutil ironia, vem da contribuição individual justamente dos pequenos, que contribuem, sem ter ajuda alguma. É um assistencialismo do grande capital, ou um capitalismo auto-assistencialista, sei lá, um nome assim.
Se alguém decidir abrir uma pizzaria, é melhor fazer o dever de casa direitinho e trabalhar de sol a sol, porque se o negócio não for bem, irá perder tudo, ficará cheio de dívidas e com a fama de “loser”.
Mas se, por outro lado, alguém resolver abrir uma grande empresa de energia, cujo modelo de negócio depende de matéria prima encontrada em apenas alguns poucos países estrangeiros e se esses países decidirem aumentar o preço dessa matéria prima, colocando em risco a sobrevivência da grande empresa, ela não tem com o que se preocupar. O estado colocará toda sua força a serviço da empresa. Os institutos de informação irão conspirar para derrubar os governos “inimigos”, vão fazer de tudo para colocar no poder alguém que “entenda como as coisas funcionam” e se nada disso der certo, mandam as forças armadas invadirem o país, sob um pretexto qualquer.
O custo disso tudo não importa, porque é pago pelo pequeno contribuinte, que não tem voz e não pode reclamar. O que importa é salvar o grande paquiderme ineficiente e estúpido, que montou um negócio inviável.
Se alguém decidir abrir um banco e emprestar bilhões de dólares para financiar a compra de casas com preços inflados artificialmente, ou se não fizer isso mas se comprar cotas dos fundos que fizeram esses empréstimos podres e depois descobrir que tem apenas pó em suas mãos e que o tamanho do buraco é de algumas dezenas de bilhões de dolares não deve se preocupar: seus problemas acabaram. O estado vai emprestar centenas de bilhões de dólares para que o banco continue funcionando exatamente da mesma forma. Não vai exigir nenhum ajuste de conduta e tampouco investigar ou punir as empresas de classificação de risco que avaliaram as hipotecas podres como investimento AAA.
Pode parecer absurdo, mas é isso o que está acontecendo nos EUA hoje. São literalmente uma dúzia de empresas – sete de petróleo, alguns bancos e uma Cia de seguro – que gozam das mais variadas e generosas benesses do governo, um verdadeiro assistencialismo, sonho de todo socialista convicto, enquanto centenas de milhares de pequenas empresas tem que viver as custas de sua própria competência, como deve ser, num verdadeiro e saudável capitalismo.
O mundo está cansado de ver governos doarem dinheiro para banqueiros e empresários biliardários que fizeram besteira e quebraram. Isso acontece em todos os lugares. No texto acima usei o exemplo dos EUA, mas aqui no Brasil a coisa não é diferente. Alguém tem dúvida de que foi o nosso dinheirinho que salvou o Silvio Santos?
Estamos cansados de usar petróleo como combustível. As grandes e bilionárias empresas de energia se recusam a pesquisar fontes e processos alternativos, continuando a praticar um negócio insustentável, sobre todos os aspectos em que se olha. Um negócio fundamentado em um produto finito, não sustentável, poluente e cujo comércio a preços ditos aceitáveis, só existe em função de ditadores sanguinários, mas amigos, e das guerras usadas para dominar os países cujos governos ousaram pensar diferente.
O mundo não aguenta mais essa fórmula. A crise de 2008 e a tragédia de 11 de Setembro foram os primeiros sinais de alerta, mas parece que ainda não entendemos o recado. Quando deveria justamente tomar um rumo de renovação e criatividade, o governo dos EUA resolveu abandonar a luta pela liderança em pesquisa e ao invés de, por exemplo, financiar a construção do grande acelerador de partículas com o objetivo de descobrir novas formas de energia, resolveu empreender guerras para sustentar seu vício em petróleo estrangeiro e continua financiando e apoiando as empresas que representam o atraso.
A China não tem o menor respeito pelo meio ambiente e, na minha opinião, o seu crescimento econômico é ambientalmente insustentável. A Europa, que tem algumas ilhas de eficiência, sofre com o envelhecimento da sua população, a intolerância ao imigrante, cuja diversidade lhe faria muito bem, e não sabe como fazer para continuar a financiar seu modelo assistencialista e sua boa vida.
Aqui continuamos a investir em praticas antiquadas, como o incentivo ao consumo de automóveis e o assistencialismo barato, de uma via, como formula para superar crises econômicas, quando tínhamos que investir em educação, base para que as novas gerações possam criar e operar o mundo novo que vem por aí.
Até quando isso vai ser assim é dificil saber, mas algo precisa mudar e é por isso que as bolsas de valores andam tão irrequietas. Se alguém acha que existe um pacote milagroso de dinheiro que vai colocar tudo nos eixos, corre o sério risco de apostar na ponta errada.