O que será?

Leio no blog do Romulo (www.rfederici.com.br/blogdoromulo/) os motivos pelos quais o Presidente Barack Obama estaria marcado para perder a eleição presidencial do ano que vem nos EUA. Citando um colega norte americano o Rômulo nos diz que, entre outras características, a sociedade norte americana é “darwinista”, isto é, os fortes (mais adaptados) sobrevivem, enquanto os mais fracos morrem, ficam pelo caminho. Na sociedade norte americana não haveria espaço para assistencialismo. Os pobres devem sobreviver como puderem, porque ninguém irá enfiar a mão no bolso para ajudar.

São afirmações interessantes, pois foi essa a impressão que eu tive dos Estados Unidos, quando era garoto e comecei a prestar atenção a essas coisas. Mais tarde me impressionou a derrocada de algumas empresas que julgava poderosas, como a Pan Am. Depois me dei conta de que esse era um processo de renovação saudável, que fazia com que o sistema todo ficasse mais forte. Quem era fraco quebrava e dava lugar a outros mais adaptados, mais eficientes, num ciclo de renovação constante.

No entanto hoje em dia eu tenho uma opinião ligeiramente diferente sobre os EUA. O que estou vendo lá é um processo para o qual ainda não encontrei um nome: quem é pequeno tem que ser eficiente, pois não conta com nenhuma assistência do estado, enquanto os grandes gozam das mais variadas benesses, utilizando dinheiro público que, por sutil ironia, vem da contribuição individual justamente dos pequenos, que contribuem, sem ter ajuda alguma. É um assistencialismo do grande capital, ou um capitalismo auto-assistencialista, sei lá, um nome assim.

Se alguém decidir abrir uma pizzaria, é melhor fazer o dever de casa direitinho e trabalhar de sol a sol, porque se o negócio não for bem, irá perder tudo, ficará cheio de dívidas e com a fama de “loser”.

Mas se, por outro lado, alguém resolver abrir uma grande empresa de energia, cujo modelo de negócio depende de matéria prima encontrada em apenas alguns poucos países estrangeiros e se esses países decidirem aumentar o preço dessa matéria prima, colocando em risco a sobrevivência da grande empresa, ela não tem com o que se preocupar. O estado colocará toda sua força a serviço da empresa. Os institutos de informação irão conspirar para derrubar os governos “inimigos”, vão fazer de tudo para colocar no poder alguém que “entenda como as coisas funcionam” e se nada disso der certo, mandam as forças armadas invadirem o país, sob um pretexto qualquer.

O custo disso tudo não importa, porque é pago pelo pequeno contribuinte, que não tem voz e não pode reclamar. O que importa é salvar o grande paquiderme ineficiente e estúpido, que montou um negócio inviável.

Se alguém decidir abrir um banco e emprestar bilhões de dólares para financiar a compra de casas com preços inflados artificialmente, ou se não fizer isso mas se comprar cotas dos fundos que fizeram esses empréstimos podres e depois descobrir que tem apenas pó em suas mãos e que o tamanho do buraco é de algumas dezenas de bilhões de dolares não deve se preocupar: seus problemas acabaram. O estado vai emprestar centenas de bilhões de dólares para que o banco continue funcionando exatamente da mesma forma. Não vai exigir nenhum ajuste de conduta e tampouco investigar ou punir as empresas de classificação de risco que avaliaram as hipotecas podres como investimento AAA.

Pode parecer absurdo, mas é isso o que está acontecendo nos EUA hoje. São literalmente uma dúzia de empresas – sete de petróleo, alguns bancos e uma Cia de seguro – que gozam das mais variadas e generosas benesses do governo, um verdadeiro assistencialismo, sonho de todo socialista convicto, enquanto centenas de milhares de pequenas empresas tem que viver as custas de sua própria competência, como deve ser, num verdadeiro e saudável capitalismo.

O mundo está cansado de ver governos doarem dinheiro para banqueiros e empresários biliardários que fizeram besteira e quebraram. Isso acontece em todos os lugares. No texto acima usei o exemplo dos EUA, mas aqui no Brasil a coisa não é diferente. Alguém tem dúvida de que foi o nosso dinheirinho que salvou o Silvio Santos?

Estamos cansados de usar petróleo como combustível. As grandes e bilionárias empresas de energia se recusam a pesquisar fontes e processos alternativos, continuando a praticar um negócio insustentável, sobre todos os aspectos em que se olha. Um negócio fundamentado em um produto finito, não sustentável, poluente e cujo comércio a preços ditos aceitáveis, só existe em função de ditadores sanguinários, mas amigos, e das guerras usadas para dominar os países cujos governos ousaram pensar diferente.

O mundo não aguenta mais essa fórmula. A crise de 2008 e a tragédia de 11 de Setembro foram os primeiros sinais de alerta, mas parece que ainda não entendemos o recado. Quando deveria justamente tomar um rumo de renovação e criatividade, o governo dos EUA resolveu  abandonar a luta pela liderança em pesquisa e ao invés de, por exemplo, financiar a construção do grande acelerador de partículas com o objetivo de descobrir novas formas de energia, resolveu empreender guerras para sustentar seu vício em petróleo estrangeiro e continua financiando e apoiando as empresas que representam o atraso.

A China não tem o menor respeito pelo meio ambiente e, na minha opinião, o seu crescimento econômico é ambientalmente insustentável. A Europa, que tem algumas ilhas de eficiência, sofre com o envelhecimento da sua população, a intolerância ao imigrante, cuja diversidade lhe faria muito bem, e não sabe como fazer para continuar a financiar seu modelo assistencialista e sua boa vida.

Aqui continuamos a investir em praticas antiquadas, como o incentivo ao consumo de automóveis e o assistencialismo barato, de uma via, como formula para superar crises econômicas, quando tínhamos que investir em educação, base para que as novas gerações possam criar e operar o mundo novo que vem por aí.

Até quando isso vai ser assim é dificil saber, mas algo precisa mudar e é por isso que as bolsas de valores andam tão irrequietas. Se alguém acha que existe um pacote milagroso de dinheiro que vai colocar tudo nos eixos, corre o sério risco de apostar na ponta errada.

 

 

A Bula

Quando estamos doentes, vamos ao médico, ele nos examina, determina nossa condição de saúde e nos receita o tratamento. Tomamos os remédios, ficamos curados e seguimos felizes.

Isso funciona, porque nenhum de nós leigos jamais se aventurou a ler a bula, principalmente a parte em que fala nos efeitos colaterais. Ali estão listados todos os efeitos que ocorreram durante os anos em que o remédio foi testado, não importando sua freqüência. Se aconteceu uma ou 1000 vezes, não faz diferença, estará listado na bula.

O objetivo disso é obviamente informar, mas também evitar ações de responsabilidade, do tipo “ninguém me avisou que isso poderia acontecer”. Nos EUA se chama “liability” e as empresas morrem de medo dessa palavrinha tenebrosa. Por isso, colocam na bula, tudo o que um dia observaram nos usuários do remédio, “pra não dizer que não avisei”.

Resolvi, só por diversão, fazer uma lista dos efeitos colaterais de outras coisas corriqueiras, só para ver como ficaria, caso tivéssemos que ler a “bula” de tudo o que fazemos. Vamos lá:

1 – SURF

Os praticantes desse esporte correm o risco de serem engolidos por um grande tubarão branco, ou terem seus membros arrancados por outros tipos de tubarão, eventos estes que podem levar à morte.

Em dias chuvosos, o praticante pode ser atingido por raios, que podem causar surdez, queimaduras e até levar à morte.

Em locais onde muitos outros praticantes estejam na água, existe o sério risco de colisão entre eles, que pode causar lesões no corpo, algumas permanentes, perda de dentes e até cegueira, com a perda de um ou ambos os olhos.

Em dias de ondas pequenas, onde a pratica se dá em águas rasas, o praticante corre o risco de cair e bater com a cabeça na areia do fundo, podendo causar lesões nos dentes e mordeduras na língua. Em casos extremos, a queda com consequente contato com o fundo, pode também causar lesões nas vértebras, podendo levar a tetraplegia.

2 – MORAR ou TRABALHAR em EDIFÍCIOS ALTOS

Quem mora ou trabalha em edifícios altos precisa estar ciente de que o seu edifício pode ser atingido por um avião, pilotado por um terrorista louco, que pode levar a destruição do edifício e à morte de seus ocupantes.

Em caso de chuva de meteoritos, os edifícios altos tem maior exposição e as eventuais colisões podem provocar a destruição parcial ou total do prédio, causando a morte de seus ocupantes.

É possível que o vizinho de baixo seja um louco incendiário e pode, num momento de instabilidade, resolver atear fogo aos móveis, no meio da madrugada, levando os ocupantes dos andares superiores à morte, por asfixia ou intoxicação pela fumaça.

O uso do elevador é altamente arriscado. O cabo de sustentação pode se partir, o freio de emergência pode não funcionar e o ocupante pode despencar até a morte.

Ainda no elevador, existe a possibilidade de corte de energia elétrica durante a operação, fazendo seus ocupantes ficarem presos no interior por longos períodos de tempo. Nesses casos, os ocupantes estarão expostos à emissão de gases intestinais dos demais passageiros. Se algum deles tiver se alimentado de comida baiana ou muita cebola, pode levar os outros ocupantes à intoxicação e a loucura.

Sem falar na possibilidade do corte de energia ocorrer no mesmo instante em que o louco incendiário de cima resolveu atear fogo aos móveis, o que pode levar os ocupantes do elevador a serem queimados vivos.

Os prédios altos tem porteiros, geralmente pessoas de bem e muito amáveis, mas em alguns casos, muito enrolados, como o porteiro Zé, cuja enrolação pode levar ao extravio de correspondência, que pode ser uma intimação judicial ou algo do gênero, que pode levar seu proprietário a perder compromissos importantes, trazendo prejuízos e em alguns casos até problemas com a policia e com a justiça.

3 – TV

Televisões podem explodir em dias de tempestade elétrica, podendo causar cegueira, cortes, queimaduras e lesões.

A conexão elétrica das TVs podem entrar em curto circuito, causando incêndios, que podem levar a destruição total ou parcial do imóvel, provocando lesões e até levar os ocupantes à morte.

Ver TV por longos períodos de tempo pode causar lesões nos olhos. Mesmo que a lesão não seja permanente, a visão embaçada temporariamente, aliada a necessidade da pessoa dirigir um automóvel, pode levar a acidentes rodoviários que podem levar à invalidez e à morte.

Ver TV deitado no sofá pode causar sérios problemas de coluna, principalmente se o sofá for do tipo de mola e velho. Esses problemas de coluna podem levar à paralisia e obrigar o uso de cadeira de rodas.

Ver futebol pela TV expõe o espectador ao risco de ver seu time levar de cinco do XV de Arapiraca. Essa prática também pode desagradar e esposa, que pode se vingar obrigando o individuo a lavar pratos, cortar a grama e outras atividades ALTAMENTE perigosas e danosas ao ser humano do gênero masculino.

Ao ver TV, o individuo pode, acidentalmente, assistir a um show de pagode dos Paralelos do Samba ou dos Invencíveis do Amor. A exposição a esse tipo de conteúdo, por mais do que 5 minutos pode levar a lesões permanentes no cérebro, fazendo com que o usuário queira assistir também ao show do Wando e do Nelson Ned, trazendo conseqüências nefastas.

4 – FICAR SEM FAZER NADA

Ficar sem fazer nada pode causar trombose, flebite, obesidade mórbida, baixa estima, loucura e até vontade de pescar.

Pode também fazer com que a pessoa fique sem dinheiro o que pode provocar ações de despejo, obrigando a pessoa a morar embaixo da ponte, o que pode levar a insanidade e a morte.

5 – TRABALHAR

Trabalhar pode causar stress, que pode levar a complicações cardio vasculares e à morte.

Segundo o departamento de trânsito do estado americano de Nova Iorque, 80% dos acidentes de trânsito ocorrem no percurso de ida ou volta ao trabalho. Portanto, quem trabalha corre sério risco de se envolver em acidentes de trânsito, que podem causar lesões, invalidez temporária ou permanente e até a morte.

Quem trabalha muito corre o risco de não dar atenção em casa e levar um par de chifres do instrutor de tênis ou, em casos dramáticos, do bombeiro hidráulico ou do vizinho que é funcionário público e está encostado no INSS.

6 – IR ao SHOPPING

A pessoa que utilizar os banheiros de um shopping estará sujeita a ser drogada, sequestrada e ter seu rim removido, pela gangue de tráfico de orgãos humanos.

O excesso de compra pode levar a dividas impagáveis, perda do cartão de crédito, insolvência, divórico (que pode ser um bom negócio) e a loucura.

Frequentar o shopping regularmente pode levar a bobeira, falta de assunto, futilidade, fazer o individuo passar a gostar de ver a TV Globo e em casos extremos, a Band e as novelas do SBT.

Isso sem falar nos casos incríveis que me chegam pela internet, dando conta de que ir ao shopping é mais perigoso do que vestir uma camisa “I (coração) NY” em Kabul.

Por isso, amigos, quando ficarem doentes, tomem o que o médico receitou e leiam outra coisa, menos a bula.

Abs

A Pele da Cascavel

Vou iniciar plagiando um texto que saiu no Financial Times, de autoria de Frank Partnoy, intitulado The Coming World of Smaller Banks. Bancos e mercado financeiro não são assuntos que eu domino, mas eu preciso começar por eles, para chegar aonde quero e qualquer erro ou incorreção se deve tão somente a mim e ao meu desejo de resumir o que o Sr. Partnoy escreveu.

Historicamente, bancos servem para promover o encontro entre aqueles que querem emprestar dinheiro e aqueles que querem tomar dinheiro emprestado. Uma operação de captação e alocação de dinheiro. Com o tempo, os bancos passaram a fazer operações mais complexas e arriscadas, como derivativos, que alocam capital de forma distorcida e as vezes arriscada. Ainda assim, alocação distorcida de capital não deixa de ser alocação de capital; para o bem ou para o mal, é essencialmente isso o que os bancos fazem.

Em um futuro muito próximo, as tecnologias avançadas vão fazer com que os bancos necessitem cada vez de menos seres humanos para fazer esse serviço. Isso já pode ser visto e sentido. O HSBC anunciou que vai dispensar 30.000 colaboradores, 10% da sua força de trabalho. Lloyds, vai cortar 15.000. Goldman Sachs, UBS, Bank of America e Citigroup, também anunciaram cortes significativos de funcionários. Juntos empregam cerca de 800.000 pessoas.

Nós todos ficamos assustados com essas dispensas, que são na verdade milhares de pequenas tragédias, milhares de famílias que perdem sua receita. E ficamos torcendo para que o mundo se recupere e tudo volte ao normal. Mas será que vai voltar ao normal?

Há alguns anos assisti a um filme chamado “Other People’s Money”. Como assiti no exterior, não sei o nome com o qual passou no Brasil. Era a história de um investidor de Wall Street, que só queria saber de lucro. Comprava ações de empresas que estavam em boa condição financeira, mas atuando em mercados que começavam a ficar obsoletos. Assumia o controle da empresa, liquidava ela, obtinha lucros fantásticos e seguia em frente para a próxima.

A parte do filme que eu nunca esqueci foi quando ele teve que fazer um discurso na assembléia de acionistas, tentando convence-los a votar nele e usou um exemplo interessante. Disse que 100 anos atrás uma das empresas mais importantes do país era a que fabricava selas para cavalos. Todas as pessoas no país se locomoviam a cavalo e portanto precisavam do produto daquela empresa. Até que inventaram o carro. Continuando, disse que hoje ainda existem fabricantes de selas. São boas e pequenas empresas, mas não tem o tamanho, a importância e nem a rentabilidade que tinham os fabricantes de outrora. Alguém, a 100 anos atrás, teve que tomar a dificil decisão de reconhecer que a sua empresa tinha ficado obsoleta e que era melhor parar e mudar de rumo.

Por que lembrei dessa passagem? Pensem numa empresa de tecnologia, como a Google, Apple, Facebook ou Microsoft. Essas empresas, coletam e alocam conteúdo, da mesma forma que os bancos coletam e alocam dinheiro. A diferença é que o Google faz isso com 30.000 funcionários (10% do número de funcionários do HSBC), o Facebook faz com 2.000 a Apple e Microsoft não sei com quantos, mas sei que fazem essa alocação de conteúdo de forma muito mais eficiente do que os bancos de hoje. A diferença é gritante.

Imagine se em 2008 os bancos tivessem quebrado e os governos, ao invés de salvá-los com dinheiro público, tivessem autorizado empresas de tecnologia como Google, Apple, Facebook ou Microsoft a virarem banco? Como seriam esses novos bancos? Certamente essas novas instituições iriam aproveitar uma parte da força de trabalho que seria disponibilizada com a quebra dos bancos tradicionais, mas quantos deles? Metade? Um terço? É muito provável que esses novos bancos seriam muito menores, mais ágeis e eficientes do que os gigantescos bancos de hoje. Se você olhar as empresas de investimento que surgem a cada dia, verão que elas estão assumindo cada vez mais as funções dos bancos tradicionais, usando uma fração do número de funcionários.

Na minha opinião, mesmo que as empresas de tecnologia jamais entrem nesse mercado e a economia mundial se recupere, o que eu acho inevitável, os bancos de hoje nunca mais serão os mesmos. Um novo tipo de banco está sendo imaginado e ele será diferente do tipo que conhecemos até hoje. O quanto antes aceitarmos isso e nos prepararmos, mais cedo transformaremos as tragédias das demissões em oportunidades de mudança e crescimento.

O mesmo tem que acontecer com a forma como produzimos e utilizamos energia. Não é possivel aceitar que o mundo siga utilizando como fonte de energia um combustível fóssil, não renovável, que agride o meio ambiente e cuja obtenção depende de guerras e interferências nos poucos países que possuem estoque desse produto. Já passou da hora de nos livrarmos dessas mega empresas de petróleo, verdadeiros leviatãs de sete cabeças, que respiram fogo e personificam o caos. Quantas mortes e tragédias foram e ainda são causadas para que possamos continuar a abastecer nossos carros com um punhadinho de dinheiro? Isso tem que mudar.

E por falar em mudar, se olharmos para a forma como administramos os nossos países faremos os bancos tradicionais parecerem ilhas de eficiência e modernidade.

Pagamos e mantemos uma estrutura nababesca, paquidérmica, putrefata, inconfiável, absolutamente ineficiente, desconectada e obtusa, que não serve a ninguém, a não ser a quem a ela pertence. Isso tem que mudar e essas mudanças vão chegar, queiram os politicos ou não. (Apesar de você, amanhã há de ser outro dia …)

Na semana passada recebi de um amigo um artigo sobre a implantação da nova constituição da Islandia. O processo foi interiamente implantado com a participação de TODOS os habitantes do país, através do Tweeter, do Facebook e do You Tube. Eles criaram uma forma de usar essas ferramentas para coletar idéias, filtrá-las, levá-las a análise e critica, depois a aprovação e inclusão no texto. Tudo isso “on-line” em tempo real. Os habitantes podiam ver a nova constituição se formando diante de seus olhos. No final foi votada e referendada, também por todos e também via internet.

Eu acho que o que o mundo está vivendo não é somente uma crise financeira. Eu acho que o mundo é como uma cascavel que está mudando de pele, deixando a velha para exibir uma nova. Nessa nova pele tudo é diferente: a forma como fazemos negócios, como estudamos, como nos locomovemos, como nos comunicamos, como nos informamos, como compramos, como vendemos, como nos alimentamos, como cuidamos da nossa saúde, como vamos ao médico, como nos divertimos, como produzimos e usamos energia, tudo vai ser diferente. O que está acontecendo com os bancos é apenas o começo.

Fantástico ! Mil vezes fantástico ! Que inveja de quem está começando agora.

Boa semana a todos.

 

 

 

 

Zequinha

O dia está lindo. O céu azul, sem nenhuma nuvem. Não tem vento e a lancha atravessa  a Baía de Guanabara como uma faca quente cortando manteiga.

Estou voltando do trabalho antes da hora. Um bando de atobás me acompanha. Todos os dias eles saem da Ilha Cagarras, onde passam a noite, e vem para a baía em busca de comida. A tarde voltam. Eles são mais rápidos do que a lancha, voam a alguns centímetros da água e passam a poucos metros de mim. Quase posso tocá-los e se soubesse sua língua poderia falar com eles.

Estou emocionalmente confuso. De manhã recebi a notícia da morte de um dos meus melhores amigos. Perdeu a guerra contra o cancer. Estou indo me despedir. Para explicar aos meus companheiros de trabalho que precisava sair mais cedo, contei um pouco sobre ele. Em poucos minutos deixei a todos fascinados e chegamos a rir de uma passagem especialmente engraçada que lembrei. Então eu disse:

-       É dessa pessoa que eu preciso me despedir.

Eles entenderam e fui embora. Agora estou aqui, com o coração apertado pela perda, mas tenho um sorriso maroto nos lábios, pois estou me lembrando das nossas histórias.

Zeca Monteiro era uma pessoa iluminada. Não havia quem não gostasse dele.

Não se apegava a nada que fosse material e frequentemente perdia os presentes que ganhava, no mesmo dia em que os recebia. Fez um milhão de amigos e cada um deles se sentia como se fosse o seu melhor. Conhecia metade da cidade e a outra metade já tinha ouvido falar dele.

Tinha um coração do tamanho do peito. Tratava a todos da mesma forma. Podiam ser príncipes, milionários ou moradores de rua da esquina, pra ele não fazia a menor diferença, todos eram importantes.

Adorava animais, especialmente cachorros e eles o adoravam. Ficava a vontade entre os Cães de Fila bravos da casa da avó em Correas. Um deles, o Dunga – que ele chamava de Dunginha – um bicho enorme capaz de comer pedra, virava um gatinho carinhoso na presença do Zeca.

Apesar de não ter sido assíduo frequentador da escola, possuia cultura geral invejável. Era capaz de debater arte, música, teatro e muitos outros assuntos com quem fosse, de igual para igual. Tinha um papo envolvente e foram inúmeras as vezes em que passamos horas jogando conversa fora. Na verdade, não jogamos nada fora porque me lembro de quase todas até hoje.

E o talento musical? Uma vez eu vi o Zeca tocar violão até tarde na Praia dos Ossos, com um detalhe: o violão só tinha duas cordas, as outras quatro tinham arrebentado. Parecia que não eram necessárias.

Era um grande divulgador do folclore gaúcho, mas tocava qualquer coisa e quando não sabia improvisava. Uma ocasião musical antológica foi a criação do “Rock Mosquito” em parceria com o Christian, numa daquelas noites sem vento em que os mosquitos não deixam ninguém dormir. Foi quase uma hora de improvisação. Claro que ninguém escreveu a letra. Quem não estava lá e não ouviu, perdeu.

Uma ocasião ele me levou para assitir a uma sessão de gravação de alguém que não me lembro quem era. Um músico amigo dele. O estúdio ficava em Botafogo e nós ficamos na sala da técnica. Só tinha músico profissional. Lá pelas tantas os caras quiseram incluir uma outra parte na música e faltava quem tocasse. Zeca se ofereceu e tocou como se profissional fosse.

Tinha umas tiradas impagáveis. Um dia estávamos em Búzios conversando sobre tubarões e alguém perguntou se ele não tinha medo deles. Mandou a seguinte resposta, lembrando que em Búzios a comida predileta é filé de tubarão:

-       Cara, em Búzios tubarão passa de óculos escuros disfarçado de Bonito, que é pra não ser pescado.

Quando era criança Zeca era gordinho, mas no final da adolescência, fez uma super dieta e emagreceu. Entrou em forma graças a um vigoroso programa de exercícios na Academia Coelho, que ficava no finalzinho do Leblon. Toda a vez que a gente passava em frente da academia o Zeca batia continencia em reverencia a ela.

Era super vaidoso e gostava de se vestir bem, pra ficar “nos trinques”. Uma vez ele me disse:

-       Passei a maior vergonha hoje.

Isso era difícl de acontecer, porque o Zeca não se deixava abater por essas situações mundanas, mas ele me explicou:

-       Fui na liquidação da Rei das Calças.

Rei das Calças era uma loja em Copacabana que vendia calça super barato. Normalmente estava sempre lotada. Em dia de liquidação era bem pior. Era como se juntasse Xangai com Bombain. O Rio de Janeiro em peso ia lá. Ele continuou:

-       Fui experimentar uma calça e tinha uma fila enorme. Pra ganhar tempo eu resolvi não tirar os sapatos. Enfiei um pé na calça e foi bem, mas quando fui enfiar o segundo ele ficou preso. Eu tava em pé, me desequilibrei, segurei na cortina, mas ela não me segurou. Cai no meio da loja, de cueca, com o pé preso na calça e ainda destrui a cabine.

Enquanto eu tentava imaginar a cena ele finalizou:

-       Tive que pagar o “prejú” da loja e fiquei sem grana pra comprar a calça.

Tenho centenas de lembranças como essa mas queria dizer o seguinte: Zequinha, eu não sei pra onde você foi, mas tenho certeza de que é um lugar legal e você vai ser feliz. Foi um grande privilégio ter sido seu amigo e a única coisa que me arrependo foi não ter dito isso a você mais vezes.

Vai em paz, um dia a gente se vê.

Abs

PS.: Quem está lendo até aqui, se você gosta de alguém, se acha que essa pessoa é importante pra você, diga isso a ela, sempre que puder.

 

 

 

 

A Partida

“A Partida” é o nome no Brasil do filme japonês que conta a história de um músico desempregado que, para se sustentar, aceita trabalhar em uma agencia funerária, nos arredores de Tóquio. Através dele, somos apresentados ao lindo ritual de despedida que é realizado no Japão.

A família se reúne em casa, e o funcionário da funerária, de forma muito respeitosa e profissional, vai preparando e vestindo o corpo, com a ajuda e participação de todos. Eles opinam sobre a roupa, sobre a maquiagem, fazem declarações, dizem últimas palavras e até, em alguns casos, revelam conflitos ou desavenças, limpando o coração de quem fica e em tese, de quem parte. Gostei muito de conhecer essa forma de despedida e saí do cinema com a alma leve.

O assunto – a morte de uma pessoa querida e como lidar com esse momento – tem ocupado muito a minha cabeça, principalmente durante os últimos dois anos, quando tive que acompanhar a agonia e eventual partida da minha mãe.

Quando ela se foi, recebemos a benção de conhecer um sacerdote jovem, que aceitou rezar a sua missa de sétimo dia. Muito atencioso, quis conhecer sobre a história da nossa mãe e da nossa família e transformou a missa em uma celebração da vida, marcada por falas e lembranças. Foi uma cerimônia linda.

A comparação com o ritual japonês foi inevitável e fiquei feliz de constatar que aqui, nós também temos a possibilidade de tratar a partida de nossos entes queridos de forma mais confortadora.

Pensei na nossa dificuldade em lidar com a morte. Não me refiro às trágicas, ou as precoces. Estou me referindo àquelas anunciadas, que temos absoluta certeza de que vão ocorrer, encerrando um ciclo.

Porque temos tanta dificuldade de lidar com elas?

Quando eu era pequeno, um dos meus tios me disse que na vida só existem duas coisas que a gente tem certeza: vamos pagar impostos e morrer. O resto é opcional.

Eu percebi que das duas coisas inevitáveis da vida, lidamos muito bem com uma, os impostos, e ignoramos a outra, a nossa morte.

Nossas decisões diárias de vida, de relacionamento e de trabalho, nunca consideram que a vida é um ciclo: nascemos, vivemos e morremos. Nós tomamos decisões como se fossemos eternos. Imagine tratar do pagamento de impostos apenas na chegada da multa pelo correio. Seria um desastre.

Incluir a morte no contexto, coloca a vida em perspectiva e ao invés de paralisar, pode nos levar a perceber que ainda temos tempo, desejos e possibilidades. Ao pensar na morte, ao contrario do que pode parecer, abrimos perspectivas de vida. Descobri que esse é um princípio budista:

“Ao aceitarmos a morte, descobrimos a vida”.

Queria acabar o texto com essa frase, mas para encerrar, no melhor espírito descobridor da vida, vou compartilhar minha decisão, fruto de todas essas coisas que andei pensando e agora escrevendo: eu sempre quis ser um “rock star”, por isso amanhã mesmo começo minhas aulas de guitarra e vou fundar uma banda. Já até decidi o nome. O filho de um amigo tem uma chamada Os Novíssimos (ótima, por sinal). A minha vai se chamar “Os Velhíssimos” e estou procurando parceiros.

Daqui a 10 anos estaremos arrebentando e vamos tocar no Rock in Rio XXMLIV.

Alguém se habilita?

Extremos e outros bichos

Preciso voltar ao assunto do massacre na Noruega, pelo menos na primeira parte do texto dessa semana.

Li, estarrecido, declarações inacreditáveis a respeito do terrível massacre ocorrido na Noruega na semana passada, perpetrado pelo norueguês Anders Breivik.

Mario Borghezio, deputado da Liga Norte e ex-ministro de Berlusconi na Itália definiu as idéias de Breivik como “muito boas” ou “ótimas”.  Na França, Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, ex-líder da Frente Nacional, declarou que “o que parece mais grave é a ingenuidade e inação do governo norueguês”. Estava se referindo a postura do governo a respeito da imigração, que ela considera mais grave do que o massacre. Sobre Breivik, Le Pen declarou que parece “um individuo sob efeito de loucura passageira”. Na Áustria, Werner Konigsghofer, deputado do Partido Liberdade, defendeu abertamente o norueguês da crítica de um jornal de Viena.

Espalhados por toda a Europa, os partidos de extrema direita ganharam força na última década, usando um discurso que alimenta o ódio ao imigrante, é anti-islã e radicalmente contra a União Européia. Há quinze anos eles eram absolutamente inexpressivos, mas hoje, segundo o Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas de Paris, a popularidade dessa linha de pensamento subiu a níveis elevados em quase todos os países da União Européia e da Escandinávia, chegando, em alguns casos, a deter quase 25% do eleitorado.

Tal popularidade encoraja seus porta-vozes e emitir declarações de apoio a lunáticos como Breivik e a elevar o tom de seus discursos extremistas, sem que nenhum deles sofra qualquer tipo de repreensão.

Citando a jornalista Nana Queiroz, no seu artigo da edição on-line da revista Veja de 29/07, “a questão é saber o que separa esse discurso radical de ações brutais como as que deixaram 77 mortos na Noruega: um abismo, que só uns poucos indivíduos doentios vão transpor, ou uma estrada que muitos ainda podem percorrer?”

Nana Queiroz continua afirmando que “os recentes acontecimentos em Oslo mostraram que a ideologia de extrema direita criou um ambiente em que indivíduos instáveis podem tomar atitudes fora da lei, e revelou também que suas idéias são muito parecidas com as dos jihadistas que esses partidos tão apaixonadamente criticam”.

Na minha opinião, não importa de que lado do espectro o extremismo se encontra, de direita ou de esquerda. Com extremismos, quem perde é a raça humana.

Mas, vamos subir o astral do texto e falar do que aconteceu de bom? Selecionei três assuntos.

Durante a semana que passou, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso veio a público dizer que seu partido, que faz oposição ao da Presidente Dilma Roussef, deve apoiar e trabalhar para que a limpeza no Ministério dos Transportes tenha êxito. Político experiente, o ex-presidente sabe muito bem que o sucesso dessa limpeza trará dividendos políticos incalculáveis a atual Presidente, reduzindo significativamente a chance de seu próprio partido vencer as próximas eleições presidenciais. Ainda assim, recomenda o engajamento do partido, por entender que essa faxina faz bem ao Brasil. Posso estar enganado, mas para mim, isso é espírito público do tipo mais puro e que há muito não se via por aqui. Se conseguirmos multiplicar essas atitudes o Brasil será imbatível.

A segunda notícia veio do artigo de Martha Medeiros, na sua coluna semanal na Revista de Domingo do jornal O Globo. Conta-nos que um grupo de cerca de 200 engenheiros aposentados japoneses, está lutando para convencer o governo daquele país a usá-los no trabalho de estabilização da debilitada usina nuclear de Fukushima, cujo sistema de resfriamento dos reatores foi danificado pelo terremoto, seguido de tsunami, ocorrido no início do ano.

Assim como Martha Medeiros fez, fui a internet saber mais sobre essa notícia. O argumento dos aposentados é cristalino: todos têm acima de 70 anos e esperam viver mais 13 ou 15 anos, no máximo. Como o câncer a que estarão sujeitos pela exposição a radiação só irá matá-los em 20 ou 30 anos, afirmam que não faz sentido sacrificar jovens de 30 anos, levando-os a morte ainda no auge de sua produtividade e com famílias para criar e sustentar. Questionados, afirmam que não são suicidas. Pretendem fazer o trabalho, voltar aos seus lares e viver o restante de suas vidas com a consciência do dever cumprido.

Isso não é somente espírito público, mas também de coletividade e sobre eles a Martha Medeiros discorreu com perfeição. O que eu gostaria de acrescentar é um fato interessante que me saltou aos olhos. Ao calcular o tempo que, em média, lhes restava de vida, os aposentados tiveram que admitir, com muita serenidade, a iminência de sua própria morte. E usaram essa constatação como o fator determinante para decidir que são eles as pessoas certas para fazer o trabalho na usina. É uma característica cultural muito interessante, reconhecer sua finitude e usar esse conhecimento a serviço da comunidade e quis compartilhar esse pensamento com vocês.

Finalmente, para encerrar o post desse Domingo, que acabou ficando um texto meio longo, vou navegar em território que é inexplorado para mim. Minha areia movediça particular: Vou falar de futebol.

Quem me conhece e sabe do meu absoluto desconhecimento desse assunto, deve estar achando que pirei. Além de Neymar e Ronaldinho Gaúcho é provável que eu não saiba o nome de mais nenhum outro jogador que atua no futebol brasileiro na atualidade.

Mas na quarta-feira eu fui jantar na casa de uns amigos que são flamenguistas fanáticos e fui testemunha de um momento mágico do esporte, desses que não acontecem com freqüência.

O jantar saiu mais ou menos na mesma hora em que o jogo começou e por causa disso, a mesa estava vazia. Lá pelos 20 minutos do primeiro tempo a mesa encheu de cabisbaixos rubro-negros. Na sala da televisão ficou somente o mais fanático de todos, que foi quem deu o alerta:

-       Volta que o bicho tá pegando !

Como não conseguia me concentrar no jantar, por causa dos urros que vinham da sala da televisão, decidi juntar-me a eles e vi um jogo como se diz “das antigas”. Daqueles que fazem pessoas como eu, entender porque o futebol atrai tantos adeptos. Jogadores de ambos os times se entregaram ao jogo com a empolgação de amadores. Não importava a tabela, não importava o risco de contusão, só importava a vitória, como se aquele fosse o jogo da final dos tempos e que estava em disputa não um título, mas um lugar no Olímpo. Acho que até Nelson Rodrigues, que era tricolor, teria gostado.

Foram nove gols e para felicidade da casa em que eu me encontrava, venceu o Flamengo. Explicaram-me que o vencedor levaria 3 pontos pela vitória e o Santos nenhum. Naquela mesma noite, outro time, que não me recordo o nome, havia vencido o Fluminense pelo placar de 1 a zero e levaria para casa os mesmos três pontos do Flamengo.

Confesso que achei injusto e lanço aqui minha sugestão, para que o futebol volte a empolgar as massas como o fez na noite de quarta-feira: os times continuam ganhando pontos, por vitória e empate, da mesma forma que hoje, mas o time que marcar mais de dois gols, mesmo que não vença, passa a levar um ponto por cada gol marcado, a partir do terceiro. Por exemplo, se esse sistema estivesse valendo na quarta feira, o Flamengo sairia de campo com 6 pontos (3 da vitória e mais três pelo terceiro, quarto e quinto gols que marcou) e o Santos com 2 pontos, pelo terceiro e quarto gols que marcou.

Acho que o futebol ficaria mais interessante.

Boa semana a todos.

 

 

 

Os Monstros Nossos de Cada Dia

A semana começou com a noticia da agressão a pai e filho que estavam abraçados, numa feira agropecuária no interior de São Paulo. O motivo? Os agressores pensaram tratar-se de um casal homosexual e decidiram dar uma lição aos dois.

Não eram homosexuais, mas vamos admitir que fossem. Como alguém pode imaginar que tem o direito de espancar dois seres humanos apenas porque eles vivem de forma diferente da dele?

Na sexta feira recebi a noticia dos terríveis atentados na Noruega. Desde que conheci aquele país, em 1975, guardo por ele uma relação especial. Fiquei cativado pela sua natureza ainda crua e poderosa, seus vales e fiordes cavados de forma dramática pelas geleiras de outrora, que hoje deram lugar a braços de mar de aspecto deslumbrante. Sinto-me ligado aquele povo, que é ao mesmo tempo sofisticado e simples, ligado à terra, que sempre me recebeu com um misto de hospitalidade e curiosidade – os brasileiros são muito diferentes dos nórdicos. Volto lá sempre que posso e aos amigos digo que é minha “viagem da alma”, onde vou para satisfazer minha necessidade de estar em contato com a natureza pura.

As notícias e imagens dos ataques me abalaram. Pessoas inocentes, a maioria adolescentes, foram executados por um louco que não aceitava ver seu país recebendo imigrantes praticantes de outra religião. Como é possível alguém, da minha própria espécie, chegar ao ponto de achar que é certo executar inocentes, seja lá por que motivo?

No Sábado pela manhã a noticia da morte de Amy Winehouse. O fato em si, embora triste, é uma tragédia anunciada. Infelizmente já vi isso, várias vezes na minha vida. Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Cazuza são alguns dos nomes que me vêm a mente agora. Pessoas incríveis, que nos conquistaram pela sua grande sensibilidade e que, paradoxalmente, foram vitimados por ela. A sensibilidade que abre as portas da percepção e mostra o caminho da criação, pode também atormentar a alma a ponto de levar a insanidade e a auto destruição. Fico triste com o desfecho, mas é algo que aprendi a aceitar, com serenidade e tenho por essas pessoas um enorme apreço, pela arte maravilhosa que produziram e pelas portas que abriram.

O que me desconcertou no episódio da Amy foram os comentários enviados a jornais e sites de notícias. “Já vai tarde”, “Bem feito”, “Quem procura acha”. Não consigo entender como alguém pode desejar isso a uma pessoa que nunca fez mal a ninguém a não ser a si mesma.

Os dois episódios de violência e as mensagens raivosas por causa da morte da Amy, guardam uma característica em comum: revelam a dificuldade que certas pessoas têm de aceitar e lidar com o diferente. É essa dificuldade que faz com que alguém espanque um homosexual ou se incomode com o modo de vida de um artista e deseje a sua morte precoce. É ela que faz um louco matar inocentes.

A multiplicidade de caminhos e convicções que a raça humana consegue produzir é algo fantástico. Essa é a característica mais interessante da nossa espécie. Imaginem se fossemos um daqueles bandos de aves que vemos nos documentários sobre a África, em que cada pássaro voa exatamente da mesma forma, na mesma direção e no mesmo momento que os outros. Que pousa quando todos pousam, come quando todos comem, decola quando todos decolam, enfim vivem todos exatamente da mesma maneira. Não teríamos guerras, conflitos e nenhuma desavença, mas nossa vida seria muito pobre e infeliz. A riqueza da nossa existência está em sermos diferentes uns dos outros.

Nosso desafio é conseguir que essa diversidade conviva em paz.

Semanas como a que terminou parecem nos dizer que estamos falhando nessa missão, mas eu prefiro achar que elas servem para nos alertar, para nos lembrar dos monstros que habitam dentro de nós. Esses tristes eventos nos provam que, a qualquer minuto, a qualquer dia, eles podem acordar. Quando o fazem são muito barulhentos e apavorantes.

No entanto, acredito na nossa capacidade de domar monstros. Basta olhar ao redor e todos os dias vejo pessoas de bem, lutando com dificuldades, sempre com um sorriso nos lábios. Vejo uma geração incrível chegando ao mercado. Garotos que trabalham até tarde da noite, com um brilho de alegria nos olhos. Vejo outros criando empresas e projetos, com dificuldade, mas com muita criatividade e empolgação.

Vejo superação e solidariedade.  Esperança e sonhos.

Vejo luta e realização.

Vejo muito amor.

Essa é a vida no planeta Terra. Um desafio a cada minuto. Alegrias e sustos andando lado a lado, onde nos cabe a nobre missão de nunca, mas nunca mesmo, desistir ou nos deixar entregar.

Boa semana a todos.

O Abraço

Eu adoro um abraço. É o meu gesto preferido.

O aperto de mão é algo super formal. Coloca limite entre as pessoas. Sem falar no risco de ter a mão esmagada ou o ombro deslocado, ao apertar a mão de um campeão de wrestling. Imagine apertar a mão do Arnold Schwaznegger estando ele animadíssimo por te encontrar. É visita ao ortopedista na certa.

Existe uma variação, que quebra um pouco o gelo. É o aperto com as duas mãos: Você inicia oferecendo a sua mão direita, sente que existe reciprocidade e junta a esquerda por cima da de quem está te cumprimentando. Isso dá uma amenizada na frieza do momento, mas ainda assim, mantém o aperto de mão no rol dos cumprimentos frios e burocraticos. Aquele que você usa para delimitar o seu espaço. Para definir que não deseja se aproximar mais do que isso.

O beijo é gostoso, mas está na ponta oposta: implica intimidade. É claro que existem culturas onde o beijo é banalizado, como o carnaval na Bahia ou na antiga União Soviética, por exemplo. Quem volta de Salvador traz uma coleção de sapinhos em volta dos lábios. Já na União Soviética os políticos se cumprimentavam trocando um beijo na boca. Imagina chegar para uma reunião de trabalho e ter que dar um selinho no Leonid Brezhnev! Acho que nem a Hebe seria capaz de encarar. Excluindo esses casos isolados, de uma forma geral, o beijo significa um gesto de extremo carinho, que nem sempre cabe nas situações do nosso dia a dia.

Já o abraço é bem diferente. Ele encurta a distância, sem necessariamente propor intimidade ou compromisso. É um certificado de intenção, um atestado de apreço. O abraço aconchega, nivela, aproxima, iguala. Faz você se sentir ao mesmo tempo parte e centro do universo.

O abraço une até diferentes espécies. Meu boxer adora me abraçar e outro dia vi o filme de um leão abraçando a pessoa que o havia resgatado e cuidado dele até ficar adulto. É uma cena emocionante. Claro que nem todos os abraços de animais são legais. O famoso “abraço de urso” só é gostoso se ocorrer entre seres humanos, como o que eu ganho do meu filho que é 20 cm mais alto do que eu. Se você for abraçado por um urso mesmo, vai ficar em maus lençóis.

O abraço serve para todas as ocasiões. Conforta na dor, e potencializa a alegria. Aquece o inverno e arrefece o calor do verão. Serve para comemorar a vitória e consolar a derrota. O abraço protege, inclui, surpreende e revigora. Consegue fazer o tempo parar, te dá tempo para respirar, reagrupar suas forças e continuar.

Ao abraçar uma pessoa você está dizendo: “gosto muito de você e estou feliz de te encontrar”. Simples assim.

Por isso, amigos, considerem-se oficialmente abraçados no dia de hoje.

PS.: Lembro que quem quiser comentar precisa clicar no nome do post.

Amor e Paixão

Outro dia estava dirigindo para Juiz de Fora, sozinho, durante a semana. Era uma terça-feira, cedinho. A estrada estava vazia, o dia lindo e entrei numa região com muito verde, uma fazenda atrás da outra, paisagens maravilhosas, pelo menos para mim.

Me dei conta de que eu me identifico muito com a vida no campo, apesar de morar numa cidade grande e estar sempre envolvido em atividades junto ao mar. A montanha e o campo me fazem muito bem. Eu me sinto feliz nesses lugares. Gosto do cheiro, das pessoas, dos hábitos, do frio, do silêncio, enfim, fico muito bem ali. Cada vez que eu visito o campo, sinto como se meu coração se ajeitasse bem dentro do meu peito e me dissesse: – que lugarzinho gostoso que você me trouxe ..

Estava imerso nessa constatação, quando outro pensamento me veio a mente: se eu gosto tanto assim do campo e da montanha, porque não luto para ter um cantinho ali? Já não sou mais criança e estou precisando fazer um plano para quando estiver mais velhinho. Naquele momento a vida no campo me pareceu a ideal.

Pensamento “pensado”, passei imediatamente a fazer planos. Onde? Quando? Como? E o mais importante, o que é que eu vou fazer ali? Eu sou do tipo que TEM que fazer alguma coisa. Não posso me imaginar morando no campo, sem fazer, criar ou plantar alguma coisa. Como eu não sei fazer nada disso, pensei que podia dar aulas. Ensinar inglês, matemática, talvez um pouco de história e quem sabe, nos finais de semana, abrir um restaurante, pequeno, com 4 ou 5 mesas, para servir boa comida aos visitantes gourmet. Eu cozinho direitinho e minha mulher também.

Como achei que tinha chegado ao plano ideal, passei então a visualizar minha vida no campo. Construí na cabeça a imagem de como seria a minha casa, o meu jardim, o restaurante, o caminho para a escola onde iria dar as minhas aulas e finalmente me vi diante da minha turma, dando aula de inglês. Tudo isso enquanto dirigia.

Nesse momento, meu “sonho” foi invadido por uma outra imagem, que não estava nos meus planos: meu telefone tocando, enquanto eu dava aulas e eu atendendo, ante o olhar incrédulo dos meus alunos. Do outro lado da linha, um grande amigo de longa data, me dizendo que havia fechado o patrocínio para participar da próxima regata volta ao mundo de veleiros e queria me convidar para fazer parte da equipe. (Sim, eu sou um velejador)

Não pude evitar de imaginar o que aconteceria em seguida. Eu sairia andando da sala de aula, devagar, ainda falando no telefone, não só confirmando minha participação na regata, como já querendo saber detalhes do projeto e dando palpites. Iria andando até a minha casa, pegaria meu carro e iria direto ao encontro do meu amigo e dos meus novos companheiros de equipe, deixando todos aqueles planos e alunos tentando imaginar o que teria acontecido comigo.

Essa imagem do que aconteceria se recebesse tal telefonema, é absolutamente precisa. Eu sei que seria exatamente isso o que iria acontecer. Mas como isso é possível? Eu havia acabado de reconhecer que adoro a vida no campo e nas monhanhas, como posso agora reconhecer que abandonaria isso tudo, por uma coisa tão efêmera, quanto a participação numa competição de vela?

Cheguei a conclusão de que eu amo as montanhas e amo o campo. Amo tudo que está ligado a eles e me sinto muito bem com esse amor. Mas tenho paixão pelo mar, e pelas regatas.

Você pode amar uma pessoa, um lugar, uma atividade e não sentir necessidade de estar sempre em contato com elas. Você pode amar a distância e ficar feliz só de saber que aquela pessoa (ou aquele lugar) ainda existe, continua lá e continua sendo tão maravilhosa quanto no dia em que você chegou a conclusão de que a amava.

Já uma paixão é algo arrebatador. Quando você sente que alguém, ou algum lugar desperta a sua paixão, você não consegue mais viver sem essa pessoa, ou ficar longe desse lugar. Você pensa o tempo inteiro nisso. Tudo o que você faz, tem sua paixão como objetivo. É algo que não pode ficar longe.

E foi aí, quando já estava chegando ao meu destino, que formulei uma frase que quero compartilhar com vocês:

Um amor muda o seu estado de espírito. Uma paixão muda a sua VIDA.

Vocês não acham?

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